Tive um momento iradissimo esse final de semana em uma casa de campo com uns amigos pra aproveitar o feriado, e dps que voltei acabaei colocando no papel algumas reflexoes.. Espero que vcs sejam abençoados o mesmo tanto que eu fui, com "tao pouco".Comecei a estagiar há um mês. Minha rotina mudou significativamente desde que terminei o curso na Ecole. Mudei de apartamento, conheci outras pessoas e ainda estou me acostumando de novo a acordar cedinho e aos horarios a serem cumpridos. Felizmente, alguns dos meus amigos do 3° ano da Ecole também conseguiram estagio em Marseille. Entao, como o nosso cotidiano é bastante parecido, a gente começou a fazer mais coisas juntos. A mistura cultural de nos 5 (2 brasileiros, 2 alemaes e 1 francês), nos dah uma variedade de programinhas interessantes pra ocupar o tempo. Vai desde cozinhar juntos depois do estagio à conversar sobre os mais variados assuntos, principalmente sobre a nossa enorme diferença cultural.
Depois de uma semana se encontrando todo dia, a gente decidiu aproveitar o feriado do 1° de maio pra viajar. O francês, Nicolas, propôs que nos fossemos à casa dos seus pais em Chalencon na regiao de Ardèche. Nunca ouviu falar? Eh, eu tb não tinha! Ardèche é um departamento da França situado entre Marseille e Lyon, um pouquinho mais pro oeste e é uma regiao que os franceses chamam de “Campagne” (campo, fazenda). Eu poderia passar horas falando de tudo o que eu amei nessa cidadezinha tipica francesa, mas não foi por isso que eu decidi escrever.
Durante uma “promenade” (passeio) que faziamos na simpatica Chalencon, Nicolas nos falou que mesmo havendo apenas 300 habitantes, haviam duas igrejas na vila: uma catolica e uma protestante; e que durante muito tempo as pessoas que frenquentavam cada igreja não se entendiam e realmente, chagavam ao extremo de não se falar. A primeira que estava no nosso caminho, era a protestante. No momento em que eu me dirigi à entrada da igreja, meus amigos conversavam com alguém do lado de fora. Enquanto subia a escada na direçao do “templo”, minha ansiedade aumentava, como se buscasse ali um lugar de conforto, jah que tinha passado tanto tempo sem ir numa igreja com os meus mesmos “ideais”, digamos. O lugar era simples, bancos longos de madeira, uma cruz vazia ao fundo “comme d’habitude”. Fiquei parada por um tempo. O silencio chegou a me incomodar um pouco. Olhei pro lado e vi alguns panfletos espalhados em uma mesa. Peguei aleatoreamente um deles que falava de Jean CALVIN e logo embaixo estava destacado: “Um grande monumento, para um grande homem.” Não querendo acreditar no que via, olhei o verso da folha. E pior do que eu imaginava estava um pedido à congregaçao para a arrecadaçao de 40.000 euros para a construçao da sua estatua em bronze até o final do ano. Saih da igreja meio decepcionada e o passei continuou. Logo avistamos a igreja catolica. Visivelmente mais decorada, havia dentro da igreja duas pessoas que oravam nos longos bancos da capela e ainda 3 pessoas que aparentemente faziam parte do “clero” local e o padre logo ao lado. Nos receberam com um sorriso acolhedor e logo em seguida, oraram o pai nosso. Nos retiramos logo em seguida, e, passando pelas ruelas da cidade, encontramos uma “boutique” com artigos que não pareciam nem um pouco franceses. La, um senhor jah de idade super simpatico, nos recebeu e nos explicou do que se tratava a lojinha. Todos os artigos que ali se encontravam, haviam sido produzidos em Laos (Fronteira com a Tailandia) e o dinheiro arrecado com a sua venda era destinado a um projeto social que ele havia desenvolvido no mesmo pais. Esse senhor jah era aposentando quando começou o projeto e devia ter em média uns 75 anos. Vou me referir a ele como Monsieur Laos, pq eu realmente tenho problemas de decorar os nomes franceses (c’est pas évident de les savoir par coeur!!). Continuando... M.Laos era uma daquelas pessoas raras de se encontrar. A forma carismatica com que ele falava do projeto e um pouco até da sua vida pessoal, nos contagiou de forma que ninguém conseguia, ou não queria mesmo, sair da apertadinha, mas aconhegante “boutique”. Apesar de não ser médico, o projeto envolvia um hospital que foi construido para, além de suprir ao minimo as necessidades da saude da populaçao carente de Laos, operar crianças que nasciam com uma doença terminal que poderia ser revertida por uma cirurgia antes que completassem 9 anos de vida. Fomos interrompidos pelo Padre, que passou para cumprimentar M. Laos e saber como caminhava o projeto. Foi entao que ele nos falou da dificuldade em conseguir verba para as operaçoes, que custavam entre 6 à 9 mil euros (nada para o Governo, muito pra ele, apesar de sempre contribuir com o que podia). O valor mencionado me fez remeter aos 40.000 que os protestantes juntariam para construir a estatua, e devo dizer que um sentimento que de revolta me tomou naquele instante.
Enquanto aquele senhor falava com os olhos jah velhinhos mas ao mesmo tempo tao entusiasmados, os meus se enchiam de lagrimas ao ver quanto amor aquela pessoa transbordava. M. Laos terminou suas palavras dizendo que enquanto ele pudesse, enquanto tivesse saude, que ajudar aquelas pesssoas e acrescentar algo de bom nesse mundo.
Provavelmente eu não vou ver o M. Laos de novo, mas aquela meia hora de conversa deixou uma marca na minha vida. Não sei se ele conhecia a Jesus ou qual das duas igrejas de Chalencon ele frequantava, mas a praticidade do amor que ele passava representava muito mais o amor de Jesus do que qualquer estatua de bronze que fosse levantada ou qualquer igreja bem decorada.
Que aquilo que motiva aquele senhor a todo dia prosseguir, a amar e principalmente FAZER nos ultimos anos da sua vida, nos motive por toda a vida que temos pela frente: para que o mundo SINTA, entenda e CREIA o verdadeiro amor de Deus através de nos.
Thais.